Eis o texto premiado, em 2002, pela Academia Brasileira de Letras. Como se pode ver, imortais também erram. E a gente muda. Para o bem dos leitores...
O que é ela senão deleite? Construção imagética. Mistura de palavras. Metáfora. Com ou sem rima. Metonímia. Que exalta a lua, sem acobertar o sol. Que louva a beleza, sabendo reconhecer e dignificar o dito feio. Poesia. Prosa ousada que extrapola, sensível e instigantemente, a alegoria. Poesia.
Como não nos apaixonarmos pelo texto que se apresenta em versos metrificados, em rimas alternadas, em estrofes sonéticas? Que evocam sensações, imagens e cheiros. Que nos remetem à infância e nos lançam ao futuro. Que, despretensiosamente, nos aspiram para um universo inimaginável. Ou para um mundo repleto de coisas identificáveis, porém com outra cor.
Se incompreensível, de cunho estético ou moral, ou se mera junção de vocábulos desconexos, a poesia sempre transcende, excede. E o consegue simplesmente por possuir interlocutor preciso: a alma. E para falar ao espírito, brando ou atordoado, mais que palavras rebuscadas e versos simétricos, é necessário paixão.
Há que se revirar lembranças, alegres ou doloridas. Que realizar uma verdadeira garimpagem nas caixas e gavetas esquecidas e também pelas experiências ainda acesas. E depois, transcrever os sentimentos, os encontros. Não há necessidade de ser claro ou conciso na poesia. Sua função é despertar, causar, provocar, machucar talvez.
E como não nos envolvermos, num tórrido e tresloucado romance, com os objetos, motes, musas da poesia? Como deixarmos passar desapercebidos a etérea Beatriz do Chico, a suave Luisa do Tom, o cativante Severino do João Cabral? Como fingirmos indiferença a esses personagens que, de tão bem descritos e esmiuçados, muitas das vezes com poucas mas valiosas palavras, povoam nossa memória, contracenam conosco.
E ainda, como não nos enlouquecermos pelo poeta? Como não nos compadecermos de seu doloroso ato de ora vomitar ora assoprar palavras? Palavras que brincam na mente, deslizam pela língua e dançam no papel até tomar forma. E aí renegam seu criador, declaram-se independentes, saem a passear pelos recônditos inexploráveis do homem. Buscam qualquer lugar em que possam causar eco, de onde consigam arrancar emoções, mesmo que doídas.
A paixão pela poesia pressupõe paixão pelas manifestações simples e pungentes da vida. Mas, apesar dos motivos apresentados, é possível que um leitor exigente ou desavisado continue irresoluto, titubeante quanto ao regozijo de viver e comer poesia. Para eles, ouso oferecer uma receita.
Tente acordar uma hora mais cedo que a costumeira e, prostrado na janela de casa, faça uma surpresa ao sol. Esteja a sua espera quando ele aparecer, laranja, em meio a um céu lilás. Caminhe, cabelos ao vento, logo pela manhã, e sinta aquele ar de prelúdio de outono resfriar as faces, adentrar as narinas. Observe, com um olhar flaneur, o cão do vizinho (se você mirá-lo de perto, verá que está sorrindo). Solte os braços. Se ninguém estiver olhando, pegue uma cuca do chão e tente acertar um alvo invisível. Se alguém o admirar, faça dele o alvo, mas só de brincadeira, pra tentar arrancar uma risada aflita. Chegue atrasado no trabalho, por ter feito amor até mais tarde, ou por ter levado o lanche para o filho na escola, mas faça cara de preocupação. Leia, de cordel a Kafka. Invente códigos secretos com os amigos. Viaje, de carona e de barraca. Entregue-se às paixões, aos delírios, aos devaneios. Construa uma família, pinte um quadro, um borrão que seja. Conte estrelas. Saia de casa, só pra poder voltar sempre. Ame. O amante, a mãe, o porteiro. Beije. O amigo, o patrão. Ouça. Os latidos, a música, o coração. Permita-se sempre. Viva de forma a colecionar histórias para contar, não aos outros, mas a você mesmo, quando, no epílogo de sua existência, estiver a apreciar o mar, numa bela manhã de segunda.
E ao se emocionar com essas miudezas do dia-a-dia, descobrir-se-á fervoroso amante da poesia. Cúmplice das palavras lapidadas. Namorado dos versos. Admirador secreto de sonetos. E ainda, um poeta potencial. Mas se, por fim, não estiver convencido do benefício desta arte, abra uma Cecília. É tiro e queda.
É fácil deleitar-se com os prazeres simples da vida. Apenas senti-los. Mas são privilegiados aqueles que têm a sensibilidade de transcrever esses doces momentos em palavras, e você tem esse privilégio, transformando em prazer o simples ato de ler.
ResponderExcluirParabéns, gostei muito.
José Roberto
Eu diria exatamente o contrário: os imortais às vezes acertam.
ResponderExcluirParabens pelo texto.
Conviver com essa artista maravilhosa é um privilégio para mim.
ResponderExcluirE sei que é uma admiração compartilhada por muitos, a quem eu a empresto, só pela beleza da arte, pois é a mim que ela chama de "minha tia".
Tá certo, isso é orgulho,mas não o orgulho mesquinho, e sim a alegria de ter a autora de tantas palavras harmônicas, belas, inteligentes, conexas e surpeendentes, na minha família.