quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Cidade limpa, cidade nua

Marcaram de se encontrar no domingo, no Minhocão, embaixo da Daniella Cicarelli. Era a primeira vez que se veriam sem ser no trabalho. Escolheram algo inocente, um passeio vespertino por um lugar inusitado da cidade. O assunto estaria garantido, pelo menos de início. Algo como “passo por aqui todo dia de carro mas a pé é outra perspectiva...” provavelmente iniciaria a conversa. Ele chegou primeiro. Tomou a direção da Consolação, olhando para os dois lados. Viu prédio pintado de fuligem, torre do Banespa ao longe, varal, cachorro debruçado na grade. Galhos nascendo das entranhas do viaduto. Janelas que permitiam espiar as salas dos moradores, invadidas pelo dióxido de carbono e pela desvalorização. Mas não viu a Cicarelli. Viu fachadas velhas à mostra, outras recém-pintadas, um cartaz de filme despencando no horizonte. Mas não viu a modelo que, ele se lembrava bem, estava quase nua. A igreja despontou e ele percebeu que já chegava ao final da pista. Sem achar o local do encontro. Resolveu voltar, caminhar até a outra ponta, sentido Lapa. Queria estar logo com a Rose, de roupa mesmo. Foi no instante em que ele se afastava, que ela chegou. No mesmo canto da via, pelo centro, arfando. Lembrava que a Cicarelli ficava no meio da extensão do viaduto. E se pôs a caminhar, 3,4 quilômetros a sua frente, meio atrasada. Andava observando o entorno, e nada da modelo. Viu homens musculosos se exercitando nas varandas miúdas, quase trombou com umas crianças de patins, admirou a alegria das pessoas que se enredavam pelos churrasquinhos, forrós e outros acepipes. Viu um mundo que ela desconhecia. Mas a Cicarelli não fazia mais parte da festa. Tropeçou nas protuberâncias do asfalto. Admirou-se com os meninos que tomavam sol no canteiro-central-espreguiçadeira do viaduto. Riu com os travestis que terminavam a noite anterior quando o sol de hoje já se punha. Brincou com o cachorro arrebitado que levava o dono para passear naquela tarde quente. Lembrou que tinha uma bicicleta em casa que merecia desenferrujar. Viu o estranho, o inesperado. E o Marcos, lá longe, que voltava correndo. Viu, espantada e alegre, as fímbrias da metrópole expostas. Mas nada da Daniella Cicarelli. Quem estava ali, nua, era a cidade.

7 comentários:

  1. Amei! Vai pro Face ;-) Bjo. Flá!

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  2. Dos que mais gosto, por todos os motivos que já conversamos - ou pelos que ainda surgem, quando te releio.

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  3. adorei!!!!o que são acepipes? Bj. Ligia

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  4. cidade linda, cidade sua! beijo da Ale

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  5. http://www.flickr.com/photos/danibaptista/3924976357/in/set-72157622385255806/

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  6. Queridinha,

    Nada como uma cabeça pensante!
    E o livro, quando sai?
    Beijo da mami da Dani

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  7. Obrigado pela oportunidade de lermos seus escritos.

    Dada a força de textos como este, certamente serei seu visitador fiel.

    Grande abraço!

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