segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A maçã e o bibelô

O olhar de Alice insistia no bibelô exposto na prateleira. O braço magrela de Joaquim apontava com veemência o doce ao lado. E Joana, atordoada que estava, ficava a admirar os dois irmãos, pensando na séria decisão que deveria tomar, sem muita demora.

Naquele breve instante em que teria que escolher entre Alice, a irmã do meio, e Joaquim, o caçula, Joana foi fisgada pelas imagens das cenas que dividira com os pequenos nos anos de pobreza e desencanto.

Lembrou do dia em que Joaquim deixara a família apavorada quando, noite já, o menino e sua bicicleta velha não voltaram para casa. Cada um saiu a um canto a buscá-lo. E a Joana coube a sorte, e o desespero, de encontrá-lo. É que Joaquim tinha deixado seu bairro para trás a fim de se aventurar pelo centro da cidade. E, no momento em que a irmã o avistou, estava a cruzar a avenida movimentada, com sua inocência, franzinisse e inabilidade para transitar por esses espaços repletos de máquinas poderosas e ruídos dissonantes. Joana reconheceu-o no instante em que um carro lambia-lhe as pernas, quase a ponto de deixá-lo estatelado no asfalto, sem que ele sequer percebesse. Os olhos distraídos acharam o da irmã. A bicicleta correu mais rápido. E Joana o recebeu aliviada, já pensando em como encobriria dos pais a arte do irmão.

A lembrança emocionou Joana. E a maçã, na prateleira próxima, tão ao alcance das mãos, se fez mais vermelha e perfumada. Joaquim já sentia seu gosto lambuzado na boca amarga, que tão poucas delícias havia experimentado na sua curta infância.

Joana insinuou uma decisão, mas as mãos de Alice logo a procuraram. As mesmas mãos que, poucos meses atrás, cobertas de picadas de formiga vermelha, chegaram para receber os cuidados da irmã mais velha. Joana correu para o quintal, colheu a planta que, na falta de remédios caros e drogas apropriadas, servia para curar a família de qualquer mal e, emplastro preparado, aplicou com carinho nas feridas de Alice. O curativo, feito com mais amor que precisão, atenuou as picadas e levou a dor da menina embora. Alice agradeceu ficando em silêncio ao seu lado por longos minutos, enquanto Joana engasgava um sorriso.

A cena era nítida na recordação de Joana e, naquele instante, o bibelô pareceu-lhe tão gracioso! Seus contornos de gesso ficaram mais precisos. Joana teve a impressão de que a saia da bailarina começou a rodar. E Alice já se sentiu dona do pequeno enfeite, que colocaria na cômoda em que guardava as roupas ralas e alguns sonhos, para adornar sua vida sem cor.

Joana arriscou uma palavra. Joaquim esboçou um choro. E a irmã, que vivia para guardar a esperança daqueles dois, sentiu pesar a responsabilidade da escolha, primeira de tantas por fazer vida a fora. Joana então pensou que não tinha o direito de optar entre o desejo de um irmão e outro.

Entre Joaquim, para quem a maçã representava todas as guloseimas que não comera, todos os sabores de que fora privado numa vida de carências e desconsolo. E entre Alice, que via no bibelô os brinquedos que jamais ganharia, o presente que era a materialidade das suas ambições de menina. Entre uma maçã caramelada que acabaria antes mesmo de chegarem em casa. E um bibelô que viveria até o momento em que algum desavisado puxasse com mais força a gaveta da cômoda. Entre um sabor que talvez animasse uma vida que tanta tristeza já encerrava. E um enfeite que, quem sabe?, poderia deitar uma esperança, ainda que miúda, nos caminhos da pequena.

Não importava ter a maçã a casca dura e açucarada por demais. Nem o fato do bibelô ser quase feio, uma dançarina mal pintada e cabisbaixa diante de tantas iguais a ela. A irmã mais velha também via na sobremesa primária, no mal composto objeto, a realização dos seus próprios anseios.

E, ali, Joana odiou ter acertado o alvo que deu a ela o direito de escolher uma prenda naquela tão aguardada festa junina. E para não decepcionar um ou outro, devolveu o bilhete. Renunciou à bailarina. Negou o doce. Puxou os irmãos e voltou para casa. Que lá haveria miséria igual aos dois.

3 comentários:

  1. Sempre bom passar por aqui. Parabéns pela riqueza do texto.

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  2. Lindo.
    Quando sai a antologia?

    PS: Ontem, antes de dormir, me despedi de Muidinga, Kindzu e Tuahir. Eles mandaram beijos para você. E me deixaram com saudades.

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